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ACTUALIDADE DE JÚLIO DE LEMOS

 

A vida de Júlio de Lemos foi um exemplo de dedicação às letras, dignidade cívica e devotado regionalismo. Nascido em Ponte de Lima, a 7 de Setembro de 1878, começou por exercer funções docentes na antiga Escola Normal de Braga. Em 1901 era colocado em Paredes de Coura, como Secretário da Câmara, e, de 1911 a 1938, ocupou o mesmo cargo na Câmara de Viana. A sua cultura, o seu dinamismo, a sua probidade intelectual e as suas qualidades de investigador – que já em 1919, na 2ª edição da História de um Fogo-Morto, tinham merecido uma referência elogiosa do exigente e implacável José Caldas - ficaram bem patentes no trabalho de ordenação e inventariação dos arquivos desses dois municípios, que Júlio de Lemos levou a cabo sem ajudas de qualquer espécie.

Fundador e secretário (para não dizermos, pura e simplesmente, «a alma») do Instituto Histórico do Minho, a história desta agremiação cultural, de tão grata memória para os Vianenses, confunde-se com a própria actividade de Júlio de Lemos, que animou o Instituto numa das fases mais brilhantes da vida cultural de Viana (1916-1939). Jornalista incansável, sempre pronto a valorizar o património literário e artístico do distrito, os milhares de artigos que publicou na imprensa regional – nomeadamente n’Aurora do Lima e no Cardeal Saraiva – são testemunho de uma afeição sem limites ao Alto Minho e aos seus valores, como se viu em 1959, quando, já no fim de uma longa vida de trabalho, Júlio de Lemos impulsionou, como só ele sabia fazê-lo, as comemorações do centenário de António Feijó. Figura ilustre da 1.ª República, o seu liberalismo e a sua abertura de espírito só encontravam paralelo na bondade e na solicitude com que estimulava os jovens e protegia os humildes. Investigador de uma honestidade a toda a prova, seus estudos literários – como os que dedicou a José Augusto Vieira, Lima Bezerra, Trindade Coelho e António Feijó – são a imagem viva de um espírito clássico, no sentido de que nada produzia sem estudo e sem amadurecimento.

Júlio de Lemos dirigiu duas revistas literárias: a Myosotis (1897), no pendor decadentista da época, e a Limiana (1912-1917), primeiro passo para a valorização da cultura local, na singularidade da corrente a que o poeta António Ferreira chamaria «limianismo». A história deste movimento, com repercussões na Galiza, fá-la-ia Júlio de Lemos em 1924, num trabalho a que deu o próprio título de Limianismo. Neste mesmo ano foi director do Almanaque de Ponte de Lima, preciosa colecção de estudos sobre a região limiana e as suas figuras, hoje (por contraste com a realidade actual…) de raro valor. Mais tarde – em 1938 –, Júlio de Lemos prestaria à sua terra natal outro serviço relevante, ao anotar e actualizar os Anais Municipais de Ponte de Lima, com base no manuscrito deixado inédito por seu avô, o professor, paleógrafo e investigador Miguel Roque dos Reys Lemos (1831-1897). «No santuário da minha alma – escreveria Júlio de Lemos em 1948, na dedicatória do seu trabalho acerca de Manuel Gomes de Lima Bezerra –, não há mais querida imagem do que a d’Aquele a quem devo a minha formação intelectual e moral.» (A sua biblioteca particular, organizada com um desvelo que chega a ser tocante, oferecê-la-ia Júlio de Lemos ao Liceu Nacional de Viana do Castelo, em 1953, como preito de homenagem ao avô Miguel, antigo professor da casa.)

Contista da linha rústica de um Trindade Coelho, de quem foi amigo fraterno (veja-se a correspondência trocada entre ambos e publicada na Limiana), Júlio de Lemos publicou uma novela – Misérias da Carne (1899) – e dois livros de contos – Campesinas (1903) e Ares da Montanha (1956) –, os quais, embora separados no tempo por mais de meio século, remontam à mesma fonte e à mesma época. As funções burocráticas municipais, a direcção do Instituto Histórico do Minho e a colaboração assídua nos jornais – explicaria o autor em 1956 – não permitiram a publicação dos contos de Ares da Montanha na altura própria. Daí uma certa sensação de fruto tardio do regionalismo rústico que o livro provocou na data do seu aparecimento; mas não há dúvida de que o estilo de Júlio de Lemos, depurado dos excessos simbolistas das Campesinas, lucrara com a revisão a que fora submetido pelo contista, antes da impressão do segundo e último livro de ficção, pois aí avultam os fortes traços da maturidade literária do autor, agora a meio caminho entre dois estilos de época: a «arte nova» e o regionalismo sem etiquetas de um Trindade ou de um Aquilino, «o grande Aquilino» e «o mestre da prosa artística», como Júlio de Lemos lhe chamava numa das suas últimas entrevistas, em 1958.

Espírito meticuloso, de assinalável rigor científico, Júlio de Lemos tudo fazia com serenidade, com elevação e com bom-gosto. Provam-no, entre os numerosos estudos que deu a lume, as páginas do (…) livro (A Biblioteca, o Museu e o Arquivo de Viana do Castelo), escritas no fim da sua vida exemplar e publicadas inicialmente no quinzenário O Valenciano, nas quais se descrevem, com larga cópia de informações – só conservadas na memória de uma consciência atenta e vigilante –, as circunstâncias em que se criaram e desenvolveram as três instituições culturais mais significativas da Câmara Municipal de Viana do Castelo.

«O que eu queria no Minho – dizia-me Júlio de Lemos no inesquecível depoimento que A Aurora do Lima arquivou no seu número de 24 de Outubro de 1958 – era a extinção da crassa ignorância e da grosseria do nosso próximo, cuja inteligência se deslocou para o pé…» Possam estas páginas contribuir, de algum modo, para dar cumprimento ao voto do Homem simples e bom que tive o privilégio de conhecer, respeitar e admirar.

Paris, 13 de Junho de 1978

ARTUR ANSELMO

In A Biblioteca, o Museu e o Arquivo de Viana do Castelo.

Lisboa: Edições do Templo, 1978, p.7-9. (adaptado)

 
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